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Jordania, Jordania

Quais são as chances de um raio cair duas vezes no mesmo lugar? Bem, no meu caso, são bem altas.  Quando visitei minha mãe no último Rosh Hashaná, tive meu voo cancelado diante dos eventos ocorridos no início de outubro. Como somente as companhias aéreas israelenses estavam voando para Tel Aviv, me organizei para retornar pela Grécia, e dois dias mais tarde, cheguei em casa sã e salva.  Com a instabilidade ditada pela guerra, eu não tinha a intenção de voltar ao Brasil tão cedo. Mas, sentindo que minha mãe precisava de minha presença, marquei novas férias com início em 12 de junho. Ingenuamente, acreditei que um casamento real manteria tudo sob controle até minha volta, o que não foi exatamente verdade. Ao desembarcar no aeroporto de São Paulo, recebi uma enxurrada de mensagens preocupadas com meu bem estar.  - O que foi agora? Atacamos o Irã? - perguntei com ironia a um israelense, ao que respondeu não saber de nada, afinal estava indo para Salvador. Eu mal chegara, e já...

Shoá

  Foi com minha avó materna que aprendi a acender uma vela pelos mortos.  Não que ela nos cobrasse que fizéssemos qualquer coisa quando chegasse o momento de honrar os nossos. Ela simplesmente as tinha lá, acesas na intimidade do silêncio.  Mais tarde, naturalmente, adotei o hábito para marcar a data hebraica do aniversário de morte de meu pai, uma semana antes do ano novo judaico.  Com o passar dos anos, diante do vácuo deixado pelo total apagamento da vida de meus avós paternos que pereceram em auschwitz, encontrei no dia em memória ao holocausto o espaço para acomodar sua perda. Diferentemente da família de minha mãe, que tem em minha tia a guardiã das memórias, do outro lado, somente meu pai sobreviveu aos campos da morte. Sequer uma fotografia apagada de meus avós foi salva, gerando um hiato no lugar onde deveriam estar lembranças amorosas. Não há o que preencha esse vazio, mas quando acendo uma vela e procuro um lugar público para derramar minhas lágrimas em si...

Recuerdo de un soño

Foi em um raro dia quente do mês de março que tudo aconteceu. Assim como o vento do deserto soprava um manto a confundir a vista, foi o sonho dos dois amantes, sedentos daquele momento. Ela tomaria o trem da Cidade Dourada rumo ao vilarejo das Belas Memórias, para encontrá-lo às duas em ponto sob o antigo arco de pedras. Ele, que vinha das verdejantes colinas do norte, esqueceu-se do cansaço do dia anterior, num misto de entusiasmo e alegria genuína. O beijo intenso das duas moças no caminho soou como um bom presságio, mas aquele abraço, repetidas vezes imaginado, disfarçou-se de música, encabulado diante da imensidão do céu-mar sem horizonte à vista. “Me entregaria a um bom mergulho” - disse ele num sussurro, que ela fingiu não escutar, julgando pouco apropriado ficarem nús, assim, à vista de todos.  Caminharam para cá e para lá, tentando seguir os passos que ele profetizara na véspera, a fim de que tudo se fizesse perfeito. No entanto, o calor intenso os conduziu ao Noiva do Mar,...

escrever para digerir

Era só mais um dia daqueles, em que você resolve ir se ver com Deus como quem diz “vou às Casas Pernambucanas e, quem sabe, pare para um café na padaria”. Pega o trem leve lotado, fingindo lidar bem com a volta à vida pós pandemia, e salta à altura do antigo café Putin, sem lhe dar qualquer atenção. A cidade começa a brotar lentamente, os primeiros turistas pipocam aqui e ali, alheios à gente que nasce-vive-ri-e-chora entre pedras que contam a história. O cheiro de grama recém-cortada aos pés da muralha, o homem da carrocinha do beigale junto ao portão de Yaffo, o dono da loja de souvenirs que esquece a antipatia quando fareja um possível freguês, alternam-se em cena como que num roteiro pré-definido.  Normalmente desceria pelo shuk, mas uma força a puxa para o bairro judaico. “Ouça sua intuição” - torna a repetir aquela voz.  Passa pela yeshivá, desce as ruelas de pedras lisas, procurando alguma proximidade ao corrimão, por cautela e um tanto de temor por alguma emergência. A...

Tinha que respirar

A foto do grande relógio dos fundos da sinagoga, que dá para a Rua Agripas, foi o sinal de que haviam chegado. Calcei os sapatos com pressa, e deslizei pelas escadas do topo de minha pequena torre particular. A chuva fina gelava o ar e os dedos nus, como último resquício do dia anterior que alagou as ruas estreitas. Cumprimentei Tzvika, e cruzei o pequeno beco que une a calmaria de vida na aldeia ao fuzuê de uma das áreas mais movimentadas da cidade, especialmente nas manhãs de sexta-feira. Logo avistei as duas irmãs encolhidas em um canto tumultuado, os olhos à minha procura. O abraço espontâneo, mesmo que fugaz, foi a primeira gota a diluir o peso do isolamento. Após uma curta sequência de lojas, desistimos dos corredores assustadoramente apinhados do shuk, e cruzamos o casario na direção do Café Nocturno, na Rua Betsalel, que tantas vezes me serviu de quartel general. Memórias, pequenas confidências e o riso solto mesclavam-se à comida saborosa e farta, um brinde com cerveja local. ...

Entreato

O ar seco sempre me pega de jeito, parcamente amenizado por um umidificador de segunda mão comprado em minha primeira estação seca na cidade.  - Era de nosso bebê, que agora já cresceu. Você também tem um bebê? - Não, é para mim mesma, meu corpo está acostumado a muito mais umidade. O rapaz me lançou um olhar confuso, mas quem irá questionar as razões do cliente numa hora dessas? Com a secura vem também o tempo da água fresca, das portas abertas e a preguiça dos gatos estatelados nos telhados. A vida volta às ruas enfeitadas de flores multicoloridas, e um frenesi toma conta do vai-e-vem do shuk às sextas pela manhã. A promessa de abolição do uso de máscaras em áreas abertas e o alargamento do número de participantes em eventos traz um certo prenúncio de liberdade, não sem uma boa dose dúvida. Tateamos no escuro passos impensáveis para tantos outros. Será mesmo? Podemos nos abraçar? Sentar nos restaurantes, enquanto tantos morrem ao redor do mundo? O coração aperta, mas precisamos s...

Feriado

 Saia para resolver as pendências e aproveite um pouco do dia de sol, da banda na praça, das graças do casal de palhaços. Sorria diante do abraço do avô e dê-se ao luxo de se sentar no calçadão para uma porção de batatas fritas no meio da manhã. Contagie-se da alegria dos que dançam e do sorriso daqueles que lotam as mesas externas dos cafés, celebrando uma quase liberdade. E quando o corpo reclamar, volte-se a ele, até que se refaça e siga forte diante do que a vida pede, afinal é primavera.